Chega de bastidores!

porque muitas Dana's se danaram para que eles aparecessem! Ressurjam mulheres que somem! Vós não sois ossos nem apenas carcaças.

Thursday, June 15, 2006

Sei que você fez os seus castelos


Eu o conheci. Ele tinha cara de anjo, era um menino indefeso. Usava cabelo penteado de lado. A voz era mansa, o sotaque era doce. Prometeu o céu. Avisou que jamais me faria sofrer.

Doces, nuvens, cálices, termas. Passeios, farras, cama e beijos. Comilança, festança, abastança. Delicadeza, luxúria, sonhos.

Um dia, a pele caiu, o lobo apareceu. Não rosnou: vociferou impropérios.

Resultado? Sumiu, desapareceu, calou-se. Incomunicou-se.

Resultado? Dela, o castelo ruiu. No alto da torre, encarcerada em suas ilusões, Rapunzel não teve a quem jogar as tranças.
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Hoje quem se DAN'ou foi a Rapunzel abandonada em pleno verão

Saturday, June 10, 2006

Mulher, mulher

"Ele vinha com muita conversa
sem muito explicar"
(Gesubambino - Chico Buarque)

Seu nome era Esther. Mas todos a conheciam por outro. Coisas da vida: se o registro cabia ao patriarca, a vida pertencia à mãe, que educa e cria. O codinome ficou: a pequena era Nadir, cresceu Nadir, morrerá Nadir.
Só os oficiais saberão aquele outro nome. A menina Nadir virou moça, naquela cidade grande onde tudo parecia progresso. Bonita, jovem, educada, porém de família simples. Ele veio com muita conversa. Elegante, fino, alto, com aquela classe que só os estrangeiros evocavam, embora fosse brasileiro. Quem um dia pensou que o órgão sexual feminino era o OUVIDO, acertou em cheio. Ele a namorou no portão. Era a sua pequena. Ele era casado. Tivera três filhos com distinta senhora de bairro nobre. Mas o casamento fôra arranjado.
Afinal, todo ser humano merece ser feliz. Ele comprou-lhe casa, pediu-lhe a mão quando a barriga já apontava. Moraram juntos. Ela lavou, passou, cozinhou, enquanto sonhava. Ele não a queria estudiosa, nem na rua. Mulher sua cuida em casa do que lhe é de direito. Ofício não aprendeu. Não houve tempo nem permissão. Sua vida era o lar.
Veio a primeira, recebeu nome de Santa. O segundo, de imperador. O terceiro, de capital americana; o quarto de nobre português, o quinto , do avô importante naquela província. E isso foi há quase 50 anos. Idos os encantamentos primaveris, o sexo, que era forte, mais consumia dela e mais lhe imprimia tarefas. Então o sexto coroou com nome de presidente americano, aquele tão bonito. Tal e qual.
Quando a sétima chegou, na década de setenta, ele já não ganhava tão bem - ou o dinheiro lhe parecia pouco com tantos herdeiros. A vida comezinha e simples. A rotina. O feijão com arroz diário. E O TEMPO, que legou à mulher as linhas da história. Quando o sétimo chegou, veio menina para completar o ciclo. O codinome fundiu a avó e o avô, costume no país.
Sete crianças, uma mulher. Quatorze na rua o convidavam ao prazer. O salário era pouco. Então ele decidiu comprar cigarros. E foi-se sem muita conversa, sem muito explicar.
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Incrível a história da mulher: de Esther, estrela, a Nadir, ponto no céu oposto ao zênite (o ponto mais alto onde fica o sol na abóbada celeste; o ponto do sol ao meio-dia). A vida tem destas coisas.

Tuesday, June 06, 2006

Inconfidência



"Libertas que sera tamen"

Demorou para que eu voltasse à vida. Na torre, no calabouço, nos terrenos baldios da inconsciência sobre os males que a submissão aos ditames do amor-cego nos condena, emerjo, ressurjo, nasço outra vez.

Se Fênix sou, nem ossos apareceram: é virtual meu retorno à palavra. À vida, eu e mais outras tantas mulheres já voltamos. Revolta, dor, solidão, cansaço, engano, sofrimento, submissão... força, beleza, esperança, garra, luta, autonomia, inteligência.

Aos trabalhos! Mulher.
Fantasma real que sou, assombro a masculina impunidade. Danem-se! Serão palavras duras de roer, palavras que precisam ser ditas, ser faladas, ser partilhadas. O tom poderá ser jocoso, ser afetivo, ser repugnante ou dócil.

Eu e elas falaremos.
Por nós.
Por todas.
Mulheres.

Dana de Teffé

Sunday, June 04, 2006

A musa do Cony

Há quem não se conforme até hoje com o sumiço dos meus ossos... da minha pessoa... com o esquecimento da mídia, da polícia, da justiça. Muitas mulheres sumiram no mundo. Eu sumi ninguém sabe até hoje por quê. Mas hipotetiza-se.

Chega de bastidores!

Eu agora vou falar por mim e por tantas que se calaram, por tantas que foram caladas, por outras apedrejadas, injustiçadas, queimadas, aprisionadas... Gritarei pelas D'Arcs, chorarei por Ariadne, silenciarei pelas mães da praça de maio, arrancarei do meu peito a revolta muda de Olga, o choro compulsivo que Ane não teve. Sorrirei por Cleópatra e Dona Flor, dançarei com Salomé. Farei de conta como Emília, reinarei como Narizinho, espernearei como a Heloísa Helena e serei bela como a de Tróia se a Fedora Abdala se cansar.

Se tecerei colchas com os retalhos de mim, puxarei os tapetes dos que me pisaram. Cobrirei o frio da alma para aquecer o coração.

Um abraço, por favor. Venho à vida.

Dana de Teffé,
a margarida aparecida.