"Ele vinha com muita conversa
sem muito explicar"
(Gesubambino - Chico Buarque)
Seu nome era Esther. Mas todos a conheciam por outro. Coisas da vida: se o registro cabia ao patriarca, a vida pertencia à mãe, que educa e cria. O codinome ficou: a pequena era Nadir, cresceu Nadir, morrerá Nadir.
Só os oficiais saberão aquele outro nome. A menina Nadir virou moça, naquela cidade grande onde tudo parecia progresso. Bonita, jovem, educada, porém de família simples. Ele veio com muita conversa. Elegante, fino, alto, com aquela classe que só os estrangeiros evocavam, embora fosse brasileiro. Quem um dia pensou que o órgão sexual feminino era o OUVIDO, acertou em cheio. Ele a namorou no portão. Era a sua pequena. Ele era casado. Tivera três filhos com distinta senhora de bairro nobre. Mas o casamento fôra arranjado.
Afinal, todo ser humano merece ser feliz. Ele comprou-lhe casa, pediu-lhe a mão quando a barriga já apontava. Moraram juntos. Ela lavou, passou, cozinhou, enquanto sonhava. Ele não a queria estudiosa, nem na rua. Mulher sua cuida em casa do que lhe é de direito. Ofício não aprendeu. Não houve tempo nem permissão. Sua vida era o lar.
Veio a primeira, recebeu nome de Santa. O segundo, de imperador. O terceiro, de capital americana; o quarto de nobre português, o quinto , do avô importante naquela província. E isso foi há quase 50 anos. Idos os encantamentos primaveris, o sexo, que era forte, mais consumia dela e mais lhe imprimia tarefas. Então o sexto coroou com nome de presidente americano, aquele tão bonito. Tal e qual.
Quando a sétima chegou, na década de setenta, ele já não ganhava tão bem - ou o dinheiro lhe parecia pouco com tantos herdeiros. A vida comezinha e simples. A rotina. O feijão com arroz diário. E O TEMPO, que legou à mulher as linhas da história. Quando o sétimo chegou, veio menina para completar o ciclo. O codinome fundiu a avó e o avô, costume no país.
Sete crianças, uma mulher. Quatorze na rua o convidavam ao prazer. O salário era pouco. Então ele decidiu comprar cigarros. E foi-se sem muita conversa, sem muito explicar.
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Incrível a história da mulher: de Esther, estrela, a Nadir, ponto no céu oposto ao zênite (o ponto mais alto onde fica o sol na abóbada celeste; o ponto do sol ao meio-dia). A vida tem destas coisas.